Antes que os carros elétricos substituam a gasolina, o etanol já vai substituir o petróleo — e a escala brasileira mudou. A novidade material desta edição é o tamanho da cadeia do etanol. A última estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento para a safra 2026/27 aponta para 41,88 bilhões de litros de etanol, um aumento de 11,7% em relação ao ciclo anterior. O milho é o mais significativo: 11,91 bilhões de litros, um aumento de 17%, e o etanol de cana-de-açúcar pode chegar a 29,98 bilhões.
A forma como estamos contando a história da transição energética brasileira precisa mudar. A discussão não deve começar com: “Quando o carro elétrico vai substituir a gasolina?”. Já há uma mudança no próprio tanque. A partir de 1º de agosto de 2026, a gasolina comum brasileira é temporariamente E32 — 32% de etanol anidro e 68% de gasolina A. A decisão é válida por 180 dias e pode ser prorrogada uma vez. Portanto, a substituição dos combustíveis fósseis no Brasil não começa quando o motorista compra um BEV. Parte disso já acontece toda vez que ele abastece com gasolina C. Isso abre uma terceira direção entre “permanecer fóssil” e “eletrificar tudo”: descarbonizar gradualmente os combustíveis líquidos e acoplar isso à eletrificação.
O número que muda a dimensão econômica do etanol: a produção brasileira era de cerca de 36,2 bilhões de litros em 2025, segundo a EPE. A Conab projeta 41,88 bilhões para 2026/27. O mais importante é a mudança estrutural nas matérias-primas. Em 2024, o milho representava cerca de 20% do etanol nacional e estávamos produzindo cerca de 7,6 a 7,7 bilhões de litros. Projetamos 11,91 bilhões para a safra 2026/27, o que será um bom 28% da produção esperada. Em outras palavras, o etanol brasileiro não é mais apenas uma história de cana-de-açúcar. Está se tornando cada vez mais: cana-de-açúcar + milho + energia + proteína animal + petróleo + biogás/biometano + bioeletricidade.
A agricultura muda completamente essa equação: o etanol de milho tem uma verdade econômica: o milho não desaparece apenas no tanque; o milho é feito no tanque. Também é produzido DDGS (Distillers Dried Grains with Solubles — grãos secos de destilaria com solúveis), que é usado na alimentação animal, assim como o óleo de milho. A EPE (Empresa de Pesquisa Energética) estima que, em 2024, os coprodutos do etanol de milho estejam na faixa de 3,7 a 6,3 milhões de toneladas de DDGS e 242 a 380 milhões de litros de óleo. Dependendo da planta e do mercado, os coprodutos podem ser uma parte importante da receita de processamento.
Um projeto financiado pelo BNDES em Mato Grosso mostra como esse processo de integração é feito: uma nova unidade da FS produzirá até 540 milhões de litros de etanol e 390 mil toneladas de DDG, que serão processados a partir de até 1,2 milhão de toneladas de milho. Esta é uma tese econômica muito interessante: o etanol de milho não é apenas combustível. Pode ser uma plataforma agroindustrial que converte grãos em: energia + proteína + óleo + outros coprodutos + atividade industrial regional. Portanto, nosso cálculo futuro não pode apenas comparar: litro de gasolina × litro de etanol. Também teremos que comparar cadeias de valor.
Quanto petróleo o E32 já substitui? Aqui temos uma conta objetiva. Para cada 1.000 litros de gasolina comum E32 vendidos: 320 litros são de etanol anidro e 680 litros são de gasolina A. Isso não significa que 320 litros de etanol sejam energeticamente equivalentes a 320 litros de gasolina — são produtos diferentes. Mas 32% do volume físico desse combustível acabado é renovável. E a dimensão macroeconômica é importante. Segundo o Ministério de Minas e Energia (MME), a transição temporária de E30 para E32 pode evitar cerca de 900 milhões de litros de importações de gasolina por ano, de acordo com a estimativa do governo usada para justificar essa medida. Esses dados serão incluídos em nosso DRE de transição. Porque substituir o petróleo importado por produção agroindustrial doméstica tem outras implicações além de apenas reduzir o consumo.
E o consumidor diz: “Mas o etanol consome mais”. Esta é a primeira frente da nossa série de educação. A frase tem uma parte real e, muitas vezes, uma parte incompleta. O etanol tem um conteúdo energético por litro menor do que a gasolina. No mesmo veículo flex, a quantidade de etanol geralmente é maior para cobrir a mesma distância. Então, “o etanol consome mais litros” pode ser verdade. Mas “portanto, o etanol é sempre economicamente pior” não decorre disso. A métrica correta é: R$/km, e não apenas km/l. Precisaremos comparar veículo por veículo: preço do etanol ÷ km/l no etanol versus gasolina ÷ km/l na gasolina. Isso é melhor do que a conhecida “regra dos 70%”, porque a relação de eficiência depende do veículo, da tecnologia, dos motores e do regime de uso. A série de preços da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis já tem dados mensais sobre gasolina C e etanol hidratado até agosto de 2026, então podemos começar a calcular a competitividade por UF.
“O etanol estraga o motor?” Temos que ser muito cuidadosos aqui. Não havia base técnica para transformar a frase genérica “etanol estraga motores flex” em uma regra. O que existe é compatibilidade material e design dos sistemas de combustível, especificação do fabricante, qualidade do combustível e manutenção. Temos até boas evidências brasileiras. Antes de implementar o E30, o Ministério de Minas e Energia realizou testes com o Instituto Mauá de Tecnologia em pista, partida a frio, emissões, diagnóstico de bordo — OBD, estabilidade do combustível e índice de octanagem. Na maioria da frota avaliada, o relatório concluiu que o E30 era tecnicamente viável. Isso não prova que qualquer etanol pode ser usado em qualquer motor. É uma lição diferente, mas também mais útil: a compatibilidade deve ser tecnicamente testada para a mistura e a frota, e não como uma afirmação geral de que o etanol estraga motores. É exatamente assim que abordaremos os mitos.
ETANOL: MITO, VERDADE OU ERRO DE CONTABILIDADE?
“Quanto petróleo o Brasil já substituiu sem mudar nenhum carro.” A Lei Complementar 214/2025 mostra que biocombustíveis e hidrogênio de baixa emissão têm alíquotas de impostos mais baixas do que combustíveis fósseis comparáveis. A lei estabelece uma faixa: as alíquotas do IBS/CBS para biocombustíveis não podem ser inferiores a 40% nem superiores a 90% das alíquotas para fósseis comparáveis. Para explicar a diferença, é necessário levar em conta a equivalência energética, os preços e o potencial de redução do impacto ambiental. A lei protege muito bem o etanol hidratado: a legislação mantém o diferencial tributário da gasolina C em relação ao etanol devido ao histórico da LC.
A Reforma Tributária não trata etanol e gasolina como dois “líquidos equivalentes”. Ela adicionou legalmente uma vantagem competitiva para os biocombustíveis. Etanol e eletricidade nem precisam estar em conflito. A Empresa de Pesquisa Energética espera que a oferta de biocombustíveis cresça enquanto a eletrificação também se desenvolve. Entre 2026 e 2035, a EPE estima R$ 110 bilhões de investimento na indústria de biocombustíveis. E sua última previsão de combustíveis, divulgada em agosto, ainda prevê que a demanda brasileira por combustíveis líquidos aumentará em 2026 e 2027. No ciclo Otto, são 65,1 bilhões de litros de gasolina equivalente em 2026 e, no segundo semestre de 2026, a demanda por etanol hidratado aumenta.
Até agora, os dados não sustentam uma história de combustíveis líquidos desaparecendo tão rapidamente quanto os combustíveis líquidos. Eles apoiam uma transformação da matriz energética.
Impacto para o varejista. Esta análise muda drasticamente a perspectiva para o posto. O futuro não é apenas vender menos combustível líquido. Pode ser vender um combustível líquido progressivamente diferente. O posto ainda precisará monitorar: gasolina A na gasolina C; etanol anidro; etanol hidratado; margem por produto; competitividade R$/km; veículos flex; híbridos flex; BEV/PHEV locais; carregamento e conveniência. Esta é uma mudança de um varejista de combustíveis para um varejista de energia de mobilidade. Mas não de uma forma que proclame prematuramente o fim da bomba.
O cenário futuro. A Conab estima 41,88 bilhões de litros de etanol na produção de 2026/27, 11,7% a mais que no ano passado, e 11,91 bilhões de litros de milho, 17% a mais. FATO: o E32 está em vigor desde 1º de agosto de 2026. FATO: a LC 214 tem um diferencial tributário de IBS/CBS para biocombustíveis sobre fósseis. PROJEÇÃO: entre 2026 e 2035, a EPE estima R$ 110 bilhões em investimentos no setor de biocombustíveis.
HIPÓTESE: o híbrido flex, que é principalmente abastecido por etanol, pode ser a rota brasileira entre veículos puramente a combustão e BEVs.
POTENCIAL: BEV versus etanol é uma questão de ciclo de vida e operação para geração de eletricidade, agricultura, fabricação e uso de veículos e baterias. Não podemos simplesmente comparar as emissões de escape.
Mara Lúcia — Revenda Contábil
