Durante nossas investigações recentes, fizemos uma pergunta desconfortável:
Se os veículos elétricos consomem menos gasolina e diesel, de onde virá a receita que atualmente está vinculada aos combustíveis?
Esta semana, aconteceu algo que nos obriga a olhar para o outro lado da equação.
Na faixa dos US$ 100, o petróleo voltou para a faixa dos US$ 100.
E o governo brasileiro respondeu reduzindo impostos.
A partir de 10 de setembro, o PIS e a Cofins sobre a gasolina foram reduzidos em R$ 0,63 por litro.
Para o etanol hidratado, foram temporariamente zerados.
E o diesel recebeu autorização para uma nova subvenção econômica de R$ 1 por litro.
Então, eu faço uma pergunta diferente:
Quanto custa ao Estado depender do petróleo?
Porque combustível não é apenas receita.
Quando seu preço sobe demais, afeta o frete.
Do frete, vai para os alimentos.
Vai para a indústria.
Vai para os serviços.
E chega à inflação.
Nesse momento, o que era uma fonte de receita pode se transformar em renúncia fiscal ou gasto público para conter preços.
Isso muda nossa investigação sobre a transição energética.
Como o carro elétrico pode reduzir a receita atrelada ao litro?
Sim.
Mas também reduz a exposição direta dessa mobilidade ao preço internacional do petróleo.
Então, não podemos fazer contas pela metade.
Precisamos saber quanto o governo deixa de arrecadar com a mudança na matriz energética.
Mas também quanto pode deixar de gastar ou renunciar em tempos de crise.
E o Brasil tem uma característica ainda mais interessante.
Nossa alternativa ao petróleo não é apenas a eletricidade.
Estamos agora usando gasolina E32.
Temos etanol hidratado.
Temos biodiesel.
Temos biometano.
Temos geração de eletricidade renovável.
E estamos caminhando para a eletrificação.
Talvez a maior vantagem do Brasil seja justamente não depender de uma única tecnologia.
Para o posto de gasolina, a mesma reflexão é aplicável.
A questão não é se a bomba vai desaparecer.
A questão é:
Qual combinação de energias será economicamente vencedora em cada região do Brasil?
Na cidade, pode ser uma.
Na estrada, outra.
No agronegócio, outra.
No Norte, outra.
No Sudeste, outra.
Por isso, quero começar a medir a transição de uma forma diferente.
Não apenas pelo número de carros elétricos vendidos.
Mas pela relação entre:
território, frota, combustível, eletrificação, infraestrutura e receita.
Porque talvez a verdadeira conta da transição energética não seja:
Quanto imposto vamos perder?
Talvez seja:
Quanto custa permanecer dependente? E quanto custa deixar de ser dependente?
Essa é a conta que precisamos fazer.
Mara Lúcia — Revenda Contábil
